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Quem tem medo das roteiristas negras?


“Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes”- Emicida

A roteirista é a profissional que cria as histórias que você vê nas novelas, nos filmes, nas séries, nas propagandas publicitárias e até mesmo nos reality shows. Seu trabalho ocupa das imensas telas do cinema às pequenas do seu celular. Quando escolhemos ser roteiristas, para além de um repertório sólido, precisamos de cursos, estudo individual e aperfeiçoar a escrita à exaustão, escrevendo roteiros que, muitas vezes, jamais serão filmados. Porém, quando chegamos ao mercado de trabalho descobrimos que não somos apenas roteiristas, somos roteiristas negras. E o que isso significa?


Uma roteirista negra é aquela profissional que após todos os percalços citados é contratada pelas produtoras ou canais, donos dos meios de produção no setor audiovisual, somente quando eles têm projetos em que os personagens são negros ou que tenham uma “temática negra” no entendimento deles. Ou seja, quando os projetos trazem miséria, violência, racismo, ou tendo a personagem negra, mesmo protagonista, posição de subalternidade.


Se esse panorama lhe parece ruim, acredite, já foi pior. A nossa entrada nesse mercado foi conquistada através da luta. Durante muito tempo, não houve constrangimento algum em se ter salas de roteiro constituídas apenas por homens cis brancos e, em alguns casos, mulheres brancas. Afinal, pessoas brancas tem o privilégio de serem o padrão e o seu ponto de vista ser apontado não como branco, mas como universal. Reproduzem estereótipos raciais e de gênero em suas histórias como algo natural e legítimo e a reconstrução dessas imagens é muito mais trabalhosa do que o seu estabelecimento.


Por isso, para as mulheres negras ser roteirista é exaustivo. Além de todas as demandas da narrativa, cabe a nós uma série de obrigações que o privilégio de ser universal retirou dos ombros dos brancos. Em uma sala de roteiro, sempre temos dupla função para um único salário. Somos criadoras e também consultoras. Precisamos saber explicar de forma didática porque determinadas ideias são racistas e machistas e trazer propostas contrárias. Se não conseguimos, nossos colegas continuam com a antiga ideia, na maioria das vezes, sem qualquer peso na consciência. Além disso, somos chamadas para dar conta de todas as experiências negras de um país em que metade da população é negra. Além de tudo isso, ainda temos que apontar o racismo de nossos colegas sem nunca chamá-los de racistas. Fazemos isso de forma solitária, já que são ainda tímidas - e fruto da mobilização social - as oportunidade de trabalho com outras mulheres negras em um mesmo projeto. Em muitos casos, mal temos voz, estando ali simplesmente para evitar que os financiadores do projeto sejam acusados de racistas.

A essa altura você deve estar se perguntando porque insistimos. Entretanto a pergunta mais coerente é: por que o mercado audiovisual tem tanta resistência em nos incluir?

Acredite, é porque nós somos perigosas. O audiovisual faz parte de um sistema que constitui o imaginário de um país. Naturalizar a presença de negros no papel de sujeitos em novelas, séries e filmes alimenta sonhos e abala a própria estrutura racista, a mesma que vem roubando de gerações a possibilidade de uma sociedade mais justa, igualitária, com equidade de oportunidades. Imagine o quão revolucionário seria se negros pudessem ocupar protagonismo e diversidade de papéis. Imagine o poder.


Sim, nós temos roupa para isso. Estamos prontas, qualificadas, disputando espaço no mercado e paralelamente investindo tempo, esforço e dinheiro em nossos projetos pessoais. Estamos contando histórias que fogem a lógica desumana do mercado, na contramão do projeto de subserviência desenhado para nós no pós-abolição.


Roteiristas negras são profissionais pretas que escrevem para cinema, televisão e plataformas de streaming e querem equidade de condições salariais e oportunidades. Querem ter direito a sua singularidade e fazer uso de seu repertório pessoal para contar todo e qualquer tipo de história. Querem escrever personagens complexos, que acertem e errem, capazes de desenvolver uma relação de intimidade com o público. Querem ter o direito de contar suas próprias histórias e, porque não, quaisquer histórias.


O medo que o mercado tem não é apenas uma questão corporativista de reserva de vagas de trabalho, mas sobretudo, uma compreensão de que a caneta em nossas mãos é uma arma anti-racista. O medo de que escrevendo história, nós iremos reescrever o futuro.


Nós existimos!